segunda-feira, 21 de julho de 2014

A reencarnação na visão espírita - José Passini





A reencarnação na visão espírita

José Passini


A volta do Espírito ao mundo corpóreo é conhecida desde tempos remotos. 


Os Hindus, os Egípcios e os Gregos sabiam que a alma poderia voltar à Terra, usando um novo corpo. 


Esses povos acreditavam que, por efeito de determinada punição, essa volta à vida física poderia dar-se até num corpo animal.


Também os Judeus sabiam da volta do Espírito ao mundo corpóreo, mas não há referências que pudesse esse retorno dar-se num corpo que não fosse humano. 


A reencarnação, para eles, ocorria em algumas situações um tanto especiais: ou para concluir o que não tivessem conseguido terminar numa vida, ou para serem punidos, em face de males praticados. 


Quando o doutor da lei perguntou a Jesus: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” 1, não estaria ele querendo que Jesus lhe ensinasse alguma fórmula especial, uma espécie de atalho, que o desobrigasse de voltar à Terra, numa nova encarnação? 


É difícil imaginar que o doutor da lei estivesse se referindo à obtenção da imortalidade, pois os Judeus tinham convicção profunda a esse respeito. 


Tudo indica que ele pretendia lhe ensinasse Jesus um procedimento que o livrasse do retorno aos trabalhos do mundo, como acontece ainda hoje com pessoas que, ao se inteirarem da reencarnação – sem levarem em conta a necessidade evolutiva –, solicitam expedientes que lhes possibilitem não terem mais que voltar à Terra...


Há outra situação em que os Judeus julgavam ser possível a reencarnação: o cumprimento de missão. 

O exemplo mais claro é o da esperada volta do Profeta Elias para a preparação dos caminhos do Messias, conforme atesta o próprio Mestre: “E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir” 2, referindo-se a João Batista.


Coube ao Espiritismo trazer o conhecimento da reencarnação ao mundo ocidental, e o fez dando uma visão muito mais ampla e profunda, demonstrando que todos os Espíritos reencarnam, não apenas para a solução de equívocos de uma vida passada, ou para o cumprimento de determinada missão, mas pela necessidade inerente a toda a criação: o imperativo do progresso, da evolução.


Em verdade, ainda que não houvesse nenhuma afirmação a respeito da pluralidade das existências, ela seria depreendida como necessidade absoluta, face à amplitude do programa de aperfeiçoamento da alma apresentado por Jesus, através do Evangelho. 


De quantos milênios vamos necessitar para pormos em prática, integralmente, um ensinamento como esse: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos  odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam” 3? 


De quantos milênios vamos necessitar, nós Espíritos ainda vacilantes entre o bem e o mal, que não sabemos amar plenamente nem os amigos? 


O Codificador demonstra sua visão lúcida a respeito do assunto, quando inquire os Espíritos: “Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?” 4


A reencarnação – opondo-se frontalmente à salvação gratuita pela fé – dignifica o Espírito imortal, que vai galgando os degraus do aperfeiçoamento ao longo dos milênios sucessivos, crescendo em sentimento e intelectualidade, num trabalhoso processo de exteriorização da herança divina, concedida igualmente a todos os Espíritos. 


No nascedouro, todos absolutamente iguais. 


As diferenças individuais, portanto, não decorrem de capricho divino, mas sim do empenho de cada Espírito no sentido de promover o seu próprio progresso. 


Nesse caminhar, vai recebendo, por justiça, os frutos de todo o bem semeado, e, em função dessa mesma justiça, é compelido a reparar os males praticados, mas não em igual medida, graças à misericórdia divina.


O Espiritismo, ao revelar ao mundo ocidental a reencarnação, prova que a verdade religiosa não é incompatível com a verdade científica, explicando que a evolução do Espírito caminha pari passu com a evolução física demonstrada por Darwin, ao tempo em que resgata diante da consciência humana um dos atributos básicos de um Ser Perfeito: a Justiça. 


Tudo provém de uma mesma fonte, todos partimos de um mesmo ponto, dotados da mesma potencialidade evolutiva, conforme ensinaram os Espíritos: “É assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo ao arcanjo, que também começou por ser átomo”.5 


Por conhecer essa luz divina imanente em toda a criação, é que Jesus lançou o desafio evolutivo: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens (...)”.6


A evolução do Espírito fica muito evidente nas palavras de Jesus, quando se declara, ele também, um Espírito em evolução: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas (...).”7 


É verdade que no dia em que chegarmos a fazer o que o Mestre fazia à época em que pronunciou essas palavras – daqui a alguns milhões de anos –, pensando que nos igualamos a ele, ele estará ainda à nossa frente, pois ele disse que poderíamos fazer obras maiores do que as que ele fazia, mas não disse que nós o ultrapassaríamos. 


Ultrapassaremos o ponto evolutivo em que ele se encontrava naquele dia, mas ele estará ainda à nossa frente, de vez que a evolução é infinita. E nós nem sabemos o que é infinito, a não ser através de uma definição terrivelmente circular: “aquilo que não tem fim”!


Kardec, em brilhante ensaio8, defende, com argumentação irretorquível, o imperativo da reencarnação sob a ótica da justiça e da misericórdia de Deus. 


É um trabalho monumental, até hoje não contestado por filósofo ou teólogo algum. 


Muitos livros foram escritos tendo como tema a reencarnação, mas não se conhece nenhum trabalho sério que rebata os argumentos ali apresentados.


Aos argumentos alinhados pelo Codificador, pode-se ainda acrescentar uma série de outros, graças aos esclarecimentos trazidos pelo Espiritismo:


Se o Espírito fosse criado juntamente com o corpo, como ficaria a justiça divina ante a flagrante diferença que existe entre as oportunidades deferidas ao homem e à mulher, na família, na sociedade e até mesmo nas religiões? 


Seria o caso de a mulher perguntar – e muitas perguntam – por que Deus as criou mulheres, sem as consultar, para sofrerem, em muitos casos, cerceamento de liberdade por parte dos pais, e depois as exigências e, não raro, a brutalidade dos maridos, enquanto lhes pesam nos ombros as sérias responsabilidades no encaminhamento e na manutenção da saúde dos filhos? 


O Espiritismo, dentro de uma visão evolucionista, mostra que o Espírito não tem sexo, podendo encarnar-se como homem ou como mulher, segundo o seu livre-arbítrio.


De acordo com a doutrina da unicidade das existências, a criação de novas almas não seria decorrente da vontade do Criador, mas estaria sujeita ao arbítrio dos casais, pois que poderiam usar um contraceptivo, impedindo Deus de usar o Seu poder de criar uma nova alma. 


O Espiritismo nos ensina que, ao usar qualquer recurso anticoncepcional, um casal apenas impede que um Espírito, já criado por Deus, que já encarnou outras vezes, volte à Terra para uma nova etapa de aprendizagem.


No caso de um estupro, por que se valeria Deus de um ato de violência, de ultraje, de desrespeito, para criar um Espírito? 


Onde estaria a justiça divina, se outros são criados, ao contrário, em momentos de amor sublime, como filhos altamente desejados? 


Por que teria esse Espírito, fruto de uma violência, de ficar estigmatizado por toda a Eternidade? 


Através dos esclarecimentos da Doutrina Espírita, sabe-se que o acontecimento brutal que se deu tem causas anteriores, e que o Espírito que se reencarna, aceitando ou sendo compelido a aceitar uma situação dessa natureza, tem ligações de natureza vária, estabelecidas no passado, principalmente com aquela que lhe será mãe.


Se não houvesse experiências anteriores, como explicar a rebeldia, a brutalidade, o mau caráter de um filho que tem toda uma ancestralidade constituída de pessoas dignas? 


Alguém poderá objetar, dizendo que é herança genética de um parente longínquo. 


Mas que culpa têm os pais? 


Por que Deus permitiria que esses gens danosos entrassem na formação daquela alma? 


A prosperar essa ideia, chegar-se-ia ao absurdo de, no esforço de impedir Deus de criar Espíritos de mau caráter, dever-se-ia esterilizar todos os que não fossem portadores de virtudes. 


Seria assim fácil “aperfeiçoar” a raça humana, como pretenderam, no campo físico, os cultores da louca teoria da raça pura.


O Espiritismo esclarece que ninguém herda inteligência, virtudes ou defeitos morais, por serem atributos do Espírito, que os traz como bagagem própria, intransferível quando reencarna. 


Se um casal tem um filho que lhe nega as linhas morais da família, trata-se de um Espírito que foi por eles adotado, em função do desejo de auxiliá-lo, ou o receberam como consequência de um passado comprometido com ele, “porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo”.9 


Dentro dessa linha de raciocínio, chega-se à conclusão que todos os filhos são adotivos, enquanto Espíritos criados por Deus. 


O casal apenas “fornece o invólucro corporal”.9 


Diga-se, de passagem, que, para um ajustamento de linguagem, dever-se-ia dizer: filhos consanguíneos e não consanguíneos, porque todos são adotivos.


A doutrina reencarnacionista é a única que não é racista, pois demonstra que Deus não seria justo se criasse um Espírito imortal dentro de uma raça. 


O Espírito é criado por Deus e evolui, passando pela humanização, no processo de angelizar-se. 


Ao humanizar-se, encarna-se inúmeras vezes, nas mais variadas raças, mas seu início, sua criação não está vinculada a grupo étnico nenhum. 


A bem dizer, todos os Espíritos pertencemos a uma única raça, pertencemos à raça divina, porque somos filhos de Deus.     
  


Bibliografia:

Novo Testamento:
1 - Lc, 10: 25
2 - Mt, 11: 14
3 - Mt, 5: 44
6 - Mt, 5: 16
7 - Jo, 14:12
O Livro dos Espíritos:
4 - item 166
5 - item 540
8 - item 222
9 - O Evangelho segundo o Espiritismo:   Cap. 14, item 8.



*José Passini é espírita atuante no Movimento Espírita de Juiz de Fora/ MG / Brasil . E mail: passinijose@yahoo.com.br.


Fonte

O CONSOLADOR. Disponível em http://www.oconsolador.com.br/ano8/371/jose_passini.html. Acesso: 21 JUL 2014.

Kardec e sua visão do futuro - José Passini






Kardec e sua visão do futuro
José Passini

Ao fazermos uma análise da personalidade de Kardec, buscando conhecer-lhe a cultura, aliada à profunda identificação com o Evangelho, não devemos ter por objetivo apenas homenagear-lhe a memória. 


Devemos vê-lo como alguém que veio para cumprir uma promessa de Jesus. 


Devemos avaliar-lhe a estatura espiritual, não apenas para nosso encantamento, mas a fim de nos conscientizarmos da nossa condição de beneficiários da sua obra, desse acervo imenso de esclarecimentos que marcaram efetivamente uma nova etapa na evolução humana.


É necessário pensarmos em Kardec na sua época, a fim de avaliar-lhe o avanço no tempo em relação ao pensamento predominante de então. Precisaríamos, todos nós, ter a possibilidade de nos transportar, de caminhar para o passado, a fim de sentirmos a época, com seus costumes e, principalmente, com suas limitações. 


Só assim poderíamos observar com justeza o avanço do pensamento de Kardec em relação aos seus contemporâneos, e até de muitos dos atuais pensadores das searas religiosas, políticas e sociais.


A Igreja, recém-saída da Inquisição – em Portugal terminou, por decreto da Regência, em 1821 –, ainda impunha terrivelmente o seu poder. 


Nos países, ditos católicos, não havia separação entre o Estado e a Igreja. 


Para se ter ideia desse poder, é só lembrarmos que em 9 de outubro de 1861, na Espanha, foram queimadas, em praça pública, 300 obras espíritas, legalmente importadas da França, no assim chamado o Auto-de-fé de Barcelona.


Em 1864, a encíclica Quanta Cura condenou a tolerância religiosa. 


E esse empenho em manter o poder não se restringiu ao século XIX, pois em 1906 duas encíclicas do Papa Pio X, Vehementes nos e Gravissimi Officii, condenaram a separação entre Estado e Igreja.


Na Espanha, em 1931, houve a laicização do poder civil, com a limitação dos poderes da Igreja. Infelizmente, em 1953, durante a ditadura de Franco, mediante concordata com a Santa Sé, voltou o Catolicismo a ser declarado religião única da nação espanhola. 


Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, em pleno século XX, foi fechada a Federação Espírita Portuguesa, e todos os seus bens foram confiscados. Na França, o clima era um tanto diferente, mas não muito. 


Tenham-se em vista as perseguições e os ataques sofridos por Kardec.


O descompasso entre a religião e a ciência tornava-se cada vez mais agudo


Entretanto, apesar da forte pressão dominadora exercida pela Igreja, no sentido de ser mantida a sua versão do Cristianismo, durante o século XIX, em algumas partes da Europa ocorria uma libertação quase rebelde de muitos intelectuais, em relação às pregações religiosas, que já não mais conseguiam convencê-los. 


O descompasso entre a religião e a ciência se tornava cada vez mais agudo, ensejando um desencanto que levou muitos Espíritos lúcidos à tomada de posições eminentemente materialistas, criando o ambiente para o surgimento do Positivismo, doutrina que visa à superação dos estados teológico e metafísico, negando tudo o que não fosse fisicamente mensurável, e preparando o terreno para o materialismo do século XX.


No campo social, a mensagem religiosa servia apenas para coonestar o egoísmo vivenciado pelos poderosos, sem que houvesse a mínima ação no sentido de amenizar a desumana e angustiosa situação das classes trabalhadoras, notadamente dos operários. 


É dessa época a famosa frase atribuída a Karl Marx: 
“A religião é o ópio do povo.” 


E realmente o era, pois constatava-se facilmente a imensa distância que havia entre a mensagem simples, fraterna, amorosa e atuante de Jesus, e aquilo que era oferecido como Cristianismo pela Igreja, totalmente comprometida com o poder temporal.


Kardec não se curva à Igreja, mas não adere ao materialismo seco e destrutivo, como tantos pensadores do seu tempo. 


Sua visão de missionário permite-lhe discordar daquilo que a Igreja oferecia como verdade e possibilita-lhe uma proposta religiosa a ser experienciada principalmente fora dos templos. 


Uma religião a ser vivida em clima de liberdade, tanto na área do sentimento, quanto da razão, conforme os ensinamentos e exemplos de Jesus.


Diante da atuação de Kardec, seria difícil enquadrá-lo nas áreas do conhecimento humano. Revela-se como teólogo ao dialogar com os Espíritos Superiores a respeito de Deus, demonstrando independência e superioridade de pensamento em relação aos seus contemporâneos, quando formula a pergunta: “Que é Deus?” 1 Isso dito numa época em que grandes pensadores estavam ainda atrelados à ideia de um Deus antropomórfico, portador de limitações humanas, quanto à forma e aos atributos. 


A reencarnação, rejeitada até então, mereceu-lhe análise clara e irretorquível


O Codificador demonstra que sua visão de Deus é cósmica, e está em perfeita consonância com os avanços da Astronomia, que, caminhando à frente das religiões, já demonstrara àqueles “que têm olhos de ver” que o Universo conhecido era maior do que o Deus ensinado por elas.


Entretanto, sua concepção científica da grandeza cósmica de Deus não o impediu de resgatar a figura do Pai justo, providente, amoroso e infinitamente misericordioso, conforme os ensinamentos de Jesus, contrapondo-se frontalmente à criação nefasta dos teólogos: o Inferno de penas eternas, dentro do contexto cristão. 


Nesse campo, revela o Codificador a sua condição também de educador e de penólogo, ao examinar com impecável lucidez temas como Céu, Purgatório e Inferno, principalmente na obra “O Céu e o Inferno”. 


Entretanto, se abriu as portas do Inferno, demonstrou que as do Céu não se descerram à custa de ofícios religiosos encomendados, de legados post mortem, mas através do esforço individual, intransferível e consciente de cada Espírito, conforme sentenciou Jesus: “... Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me.” 2


A reencarnação, rejeitada e ridicularizada àquela época, mereceu-lhe análise clara, profunda e irretorquível, em tese que o futuro, que vivemos hoje, tem consagrado como vitoriosa, de vez que até o presente não existe nenhum trabalho sério que a conteste. 


Pelo contrário, com o passar do tempo avolumam-se os trabalhos acadêmicos que a comprovam.


Demonstra com clareza a imortalidade da alma, não apenas como artigo de fé, estribada em dogmas, mas no campo da experimentação científica, através do resgate do exercício da mediunidade, prática que seria objeto de estudos levados a efeito na área acadêmica, primeiramente sob o nome de Metapsíquica e, bem mais tarde, de Parapsicologia.


Revelou-se sociólogo eminentemente cristão ao dialogar com os Espíritos sobre questões sociais, pondo em evidência temas que outras religiões só décadas mais tarde viriam discutir.


O trabalho, ensinado no meio religioso como castigo, é mostrado como oportunidade enobrecedora de colaboração na obra de Deus. 


Pela primeira vez o relacionamento entre capital e trabalho é tratado no meio religioso, com sérias advertências àqueles que, abusando do poder de mando, impõem excessivo trabalho a seus inferiores, pois era comum na Europa as jornadas de trabalho excederem a doze horas.


Kardec inseriu conceitos de moral religiosa num campo eminentemente social


Pela primeira vez, na história do Cristianismo, alguém cria ambiente para que Espíritos Superiores advirtam o homem, em nome de Deus, a respeito da responsabilidade no emprego do poder: “Todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores, porquanto, assim fazendo, transgride a lei de Deus.” 3 


Enquanto todas as vozes religiosas se calavam, Kardec inquire os Espíritos a respeito do direito do trabalhador de repousar depois de ter dado o vigor de sua juventude em trabalho: “Mas o que há de fazer o velho que precisa trabalhar para viver e não pode?” 4 


A resposta lapidar, que deveria servir de epígrafe e inspiração para muitos discursos sociológicos e religiosos: “O forte deve trabalhar para o fraco. 


Não tendo este família, a sociedade deve fazer as vezes desta. 


É a lei de caridade.” 4 Só 31 anos depois da edição definitiva de “O Livro dos Espíritos”, a encíclica Rerum Novarum, em l891, revela algum despertamento do meio católico para o tema.


Relativamente à escravidão, existente ainda no Brasil, nos Estados Unidos e em Cuba, os poderes religiosos também se mantinham calados até então, impedidos de erguer a bandeira abolicionista por estarem comprometidos com aqueles que se beneficiavam com o trabalho escravo. 


Contra esse ignominioso domínio de um ser humano sobre outro, manifestaram-se os Espíritos, falando em nome de Deus, graças às perguntas de Kardec, que, com isso, inseriram conceitos de moral religiosa num campo eminentemente social.


Nove anos antes da publicação da obra “Sujeição das Mulheres”, de Stuart Mill, que é tida como uma das molas propulsoras do movimento feminista, Kardec publica o diálogo que manteve com os Espíritos Superiores e comentários seus, analisando a igualdade dos direitos do homem e da mulher, enquanto as demais correntes cristãs mantinham, e ainda mantêm em seu próprio seio, posições altamente discriminatórias, em que a mulher continua como subalterna, malgrado os exemplos dignificantes de Jesus.


Ao perguntar aos Espíritos: “Será contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?” 5, 


O Codificador demonstra conceituar o casamento como ato eminentemente moral, mútuo compromisso assumido no âmbito da consciência de um homem e de uma mulher, acima de toda e qualquer bênção sacerdotal ou da assinatura de um documento civil. 


“A abolição do casamento seria, pois, regredir à infância da Humanidade”


Evidenciada por Kardec há mais de um século, essa a visão que se tem hoje, quando cada vez mais prospera o entendimento de que ninguém casa ninguém; as criaturas se casam, e só elas são responsáveis pela manutenção do vínculo livremente estabelecido. É digna de nota a posição do Codificador, pois se de um lado esclarece, libertando a criatura dos grilhões criados por uma bênção sacerdotal – pretensamente dada em nome de Deus –, por outro, chama-lhe a atenção para os compromissos assumidos perante o altar de sua própria consciência. 


O valor que Kardec atribui ao casamento está perfeitamente explicitado no comentário feito ao tratar do assunto: “A abolição do casamento seria, pois, regredir à infância da Humanidade e colocaria o homem abaixo mesmo de certos animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes.” 6


Numa época em que as religiões não discutiam o papel da família, por julgá-la estabelecida em função de sacramento ministrado em nome de Deus – embora, em alguns casos, até mesmo contra a vontade de quem o recebia –, Kardec, antevendo atitudes e questionamentos futuros, analisa e discute com os Espíritos Superiores o papel do instituto familiar. 


Obteve respostas esclarecedoras dos Espíritos, situando a família como núcleo insubstituível da educação humana, núcleo formado não em função de uma evolução social, mas decorrente de desígnio divino. 


Por isso, o Espiritismo já tinha resposta antecipada às duras contestações que viriam décadas mais tarde, quando regimes totalitários pretenderam instituir um modelo de educação da criança pelo Estado e, mais tarde ainda, através das propostas de “vida livre” levadas a efeito pelos hippies e aqueles que lhes partilharam as ideias.


Ao assumir veemente combate contra a pena de morte – enquanto setores religiosos se mantinham silenciosos ou mesmo coniventes –, Kardec tira o “não matarás” de dentro dos templos, levando-o à discussão penal e social, antecipando-se, em décadas, a campanhas que surgiriam bem mais tarde.


O imenso abismo cavado entre a Ciência e a Religião pelos estudos de Copérnico e Galileu alargou-se ainda mais com a publicação da obra “Da Origem das Espécies”, de Charles Darwin. Coube a Kardec o papel histórico de construir uma ponte luminosa, ligando Ciência e Religião. 


O pensamento de Kardec é uma antevisão terrena dos caminhos da Humanidade


Contestando o Criacionismo, põe em evidência a evolução do Espírito, que caminha pari passu com a evolução física demonstrada por Darwin, ao tempo em que resgata diante da consciência humana um dos atributos básicos de um Ser Perfeito: a Justiça. 


Tudo promana de uma mesma fonte, todos partimos de um mesmo ponto, dotados da mesma potencialidade evolutiva, conforme ensinaram os Espíritos: 


“É assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo ao arcanjo, que também começou por ser átomo.” 7 


Por conhecer essa luz divina imanente em toda a criação, é que Jesus lançou o desafio evolutivo: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens (...)”.8


Não se pretendeu aqui fazer uma análise exaustiva da obra de Kardec, nem da sua capacidade como filósofo, educador, sociólogo ou teólogo. 


Buscou-se enfocar apenas o avanço do seu pensamento, em relação aos seus contemporâneos. 


Kardec transcende sua época, enxergando além dos interesses, da cultura, do meio social e religioso em que convive.


Se o Prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail tivesse publicado suas obras sem revelar os diálogos com os Espíritos e o seu aspecto religioso, por certo a França o teria incluído entre seus filósofos, conforme já o fizera entre seus grandes educadores.


No decorrer deste milênio, quando o ranço religioso e o academicismo enfatuado se fizerem menos presentes, e quando não mais estiverem tão distanciados das verdades do Evangelho puro, Kardec certamente será estudado nas universidades, será “descoberto” como um gênio do século XIX, maravilhando Espíritos que já terão reencarnado para o estabelecimento de diretrizes educativas dos tempos novos. 


Nessa ocasião, terão dificuldade em situá-lo numa área do saber humano, em face do domínio revelado por ele no campo da sociologia, do direito, da educação, da filosofia e, principalmente, da teologia.


A marca inquestionável da sua condição de grande missionário é o fato de o seu pensamento não estar preso ao lugar e à época. 


Seu pensamento vigoroso projeta-se no futuro, numa antevisão terrena dos caminhos da Humanidade. 


Espiritualmente falando, não é antevisão, é simplesmente a recordação dos temas humanos que mereceram seu estudo, sua análise minuciosa, no Espaço, antes de se reencarnar. 


Guardadas as devidas proporções, é o mesmo fenômeno que se deu com Jesus que, transcendendo os conhecimentos, os interesses, as aspirações – a própria cultura da época –, fez abordagens de assuntos incomuns e deixou ensinamentos e diretrizes evolutivas para os séculos porvindouros. 



Referências:

O Livro dos Espíritos:

1 - item 1

3 - item 684

4 - item 685 a

5 - item 695

6 - 696 (comentário)

7 - item 540.

Novo Testamento:

2 - Mt, 16:24

8 - Mt, 5:16.

*José Passini é espírita atuante no Movimento Espírita de Juiz de Fora/ MG / Brasil . E mail: passinijose@yahoo.com.br.



 Fonte:
Disponível em http://www.oconsolador.com.br/ano5/238/especial.html. Acesso : 21 JUL 2014.


                                                

sábado, 28 de junho de 2014

Dimensões Espirituais do Centro Espírita - Suely Caldas Schubert




Dimensões Espirituais do Centro Espírita

Suely Caldas Schubert




Introdução


Costumamos frequentar o Centro  Espírita durante anos sem atentarmos para aspectos mais profundos da sua importância, pois o vemos apenas como o local onde vamos buscar ajuda, consolo, amparo e esclarecimento, e onde se tem um bom ambiente espiritual, apropriado para as reuniões espíritas.



Não nos damos conta de toda a complexa estrutura espiritual que mantém uma sede de atividades espíritas, no âmbito dos encarnados, para que ela possa atuar nos dois planos da vida.



Entretanto, há alguns anos, estamos sendo conscientizados, principalmente através de mensagens dos Instrutores Espirituais, do que é, na realidade, o Centro Espírita e a premente necessidade que temos de adequá-lo e preservá-lo de acordo com as diretrizes da Codificação, bem como dos cuidados com que a Espiritualidade Maior cerca e dispensa, ao longo do tempo, aos núcleos espíritas que estão incluídos entre os que são merecedores dessas providências, pelo trabalho sério, nobre e edificante que realizam.



O Espírito Manoel Philomeno de Miranda relata no capítulo 21 do livro Tramas do Destino, como são os planejamentos espirituais de um Centro Espírita, inclusive relatando os compromissos assumidos pela equipe espiritual que trabalharia diretamente com os encarnados, junto àquele que seria o seu patrono, no caso o Espírito Francisco Xavier, que foi abnegado trabalhador do Cristianismo no século XVI. (1)



Iremos enfocar aqui alguns desses planejamentos do plano extrafísico, e como são efetuados na prática pelos Benfeitores Espirituais, fazendo uma reflexão em torno da participação dos encarnados, enquanto tarefeiros da seara espírita.











Alicerces espirituais



O Centro Espírita é muito mais do que a casa física que lhe serve de sede.


Transcende às paredes, aos muros que o circundam e ao teto que o cobre.


Em verdade, o Centro Espírita é um complexo espiritual em que se labora nos dois planos da vida, a física e a extrafísica, e com as duas humanidades, a dos encarnados e a dos Espíritos desencarnados.


Em razão disso, as providências e cuidados da Espiritualidade Maior são imensos quanto ao planejamento e a organização de uma instituição espírita.


Já há muito sabemos que as planificações espirituais antecedem as dos encarnados, por isso se diz, comumente, quando se pensa e projeta uma obra espírita, que esta já estava edificada na Espiritualidade.


O que é real e verdadeiro.


Os alicerces espirituais, portanto, são “levantados” bem antes, servindo de modelo para a obra que se pretende edificar no plano terreno.


O Centro Espírita não é a casa onde ele se abriga, mas, sim, o labor que ali se desenvolve, o ambiente que se cultiva e preserva, a organização intemporal que o orienta e assessora, os objetivos e finalidades que o norteiam, o ideal e o sentimento com que o conduzem.


Por isso prescinde a obra espírita do luxo e do supérfluo para atender à simplicidade e ao conforto que a tornem acolhedora.



As suas bases, os seus alicerces espirituais assim argamassados farão com que a obra se erga firme na Terra e permaneça de pé vencendo as tormentas e vicissitudes humanas.



É “a casa edificada sobre a rocha”, de que nos fala Jesus, capaz de resistir através dos tempos.



Mas que só se materializará se a equipe encarnada colocar dia a dia os tijolos do amor e o cimento da perseverança; se os labores ali efetuados levarem o sinete da caridade e do desinteresse pessoal, transformando-se assim em templo e lar, hospital e escola.



Reafirmamos: para isto não há necessidade de que a obra seja luxuosa ou grandiosa; ela poderá ser uma casinha simples, despojada, de acordo com a realidade local, e ter uma atmosfera espiritual resplandecente, resultante do trabalho que ali se realiza, pois no dizer de Léon Denis “no mais miserável tugúrio há frestas para Deus e para o Infinito”.









A direção espiritual



Os planos iniciais para a fundação de um Centro Espírita ocorrem na Espiritualidade com antecedência de muitos anos, quando a equipe espiritual assume a responsabilidade de orientar e assessorar as futuras atividades que ali serão desenvolvidas.


Isto é feito em sintonia com aqueles que irão reencarnar com tais programações.


Para chegar a se estabelecer esses compromissos são estudadas as fichas cármicas daqueles que estarão à frente da obra no plano material, convites são feitos, planos são delineados e projetados para o futuro.


Não podemos nos esquecer que aqueles que se reúnem para um labor dessa ordem não o fazem por casualidade.



Existem planificações da Espiritualidade que antecedem, portanto, à reencarnação dos que irão laborar no plano físico.


O projeto visa essencialmente a atender aos encarnados, pois através desse labor são concedidas oportunidades de crescimento espiritual, ensejos de resgate e redenção; reencontros de almas afins, de companheiros do passado ou, quem sabe, desafetos no caminho da tolerância e do perdão que a diretriz clarificadora do Espiritismo e a atmosfera balsâmica do Centro propiciarão.


Para que isto seja alcançado, a Casa Espírita apresenta um leque de opções variadas de aprendizado e trabalho, onde se favorece a transformação moral, que deve ser o apanágio do verdadeiro espírita, através do exercício da caridade legítima a encarnados e desencarnados, da tolerância e da fraternidade no convívio com os companheiros – o que, em última análise, é a vivência espírita, que traz nos seus fundamentos a mensagem legada por Jesus.


Todavia, muitos desses ensejos de reconciliação, de harmonia, de progresso espiritual; muitas das esperanças e expectativas dos Benfeitores Espirituais são desdenhadas por nós, os encarnados, que esquecidos dos compromissos assumidos deixamo-nos envolver pelo personalismo, pela vaidade, pela disputa de cargos e deferências, pelo ciúme e inveja, por nos acreditarmos melhor que os outros, que somente nós sabemos e somos espíritas de verdade, que temos missão especial, quando não enveredamos por esse novo prisma de considerarmos a Casa Espírita como uma empresa, que deve ser dirigida friamente e dar constantes lucros, não importando que a Causa seja postergada e colocada em segundo plano para que tais resultados sejam alcançados, enfim, todos esses desvios de curso, todas essas idiossincrasias que abrem campo às dissidências e à sintonia com espíritos interessados em retardar a marcha do bem quanto a de nós próprios.


Quando, porém, sentimos e vivemos as diretrizes espíritas, é mais fácil compreender o nosso companheiro difícil e com ele conviver, aprendendo a estimá-lo realmente.


Porque é mais fácil amar aquele que vem pedir socorro e que nos estende a mão do que o companheiro ao nosso lado, investido, muita vez, da posição de “fiscal” de nossas atitudes.


Os Amigos Espirituais muito esperam de nós nesse campo da rearmonização com o nosso passado, porque, talvez, pela primeira vez já sabemos quanto às implicações do passado e responsabilidades no presente.


Por isto é essencial que nos esforcemos para viver as diretrizes espíritas, a fim de que honremos o Espiritismo não somente “com os lábios”, mas essencialmente com o coração, com o melhor de nós mesmos.








Os recursos magnéticos de defesa



 Vejamos como Manoel Philomeno de Miranda explica quais as providências adotadas com relação à fundação do Centro Espírita Francisco Xavier:


“(...) antes mesmo que se definissem os planos da edificação material da Casa, foram tomadas medidas no que dizia respeito aos contingentes magnéticos no local e outras providências especiais.


Ergueu-se, posteriormente, o Núcleo, em cuja construção se observaram os cuidados de zelar pela aeração, conforto sem excesso, preservando- se a simplicidade e a total ausência de objetos e enfeites que não os mínimos indispensáveis móveis e utensílios para o seu funcionamento...


Todavia, nos respectivos departamentos reservados à câmara de passes, recinto mediúnico e sala de exposições doutrinárias, foram providenciadas aparelhagens complexas e com finalidades específicas, para cada mister apropriadas, no plano espiritual.” (2)


Esses recursos magnéticos que constituem as defesas espirituais de um Centro Espírita fiel aos princípios da Codificação Kardequiana, conforme as circunstâncias o exigem, podem ser intensificados tal como é relatado no notável livro da querida médium Yvonne Pereira, Memórias de um Suicida, quando é mencionada a instituição na qual seriam realizadas algumas sessões mediúnicas especiais para atendimento de um grupo de suicidas.








A sala de exposição doutrinária


Toda Casa Espírita tem o seu espaço destinado à realização de reuniões públicas, de portas abertas, onde os expositores abordam estudos e palestras doutrinárias, especialmente das obras que constituem a Codificação Kardequiana.


Este recinto recebe da Espiritualidade o cuidado compatível com a importância das tarefas ali desenvolvidas.


Espíritos especializados magnetizam o ambiente e o preservam e renovam constantemente, propiciando uma psicosfera salutar, consoante informa Manoel Philomeno de Miranda.


São instaladas defesas magnéticas que impedem a entrada de entidades desencarnadas hostis e malfeitoras, assim, só entram aqueles que obtêm permissão.


Tais cuidados são imprescindíveis em razão da natureza do trabalho que os Centros realizam.


Sendo um local para onde convergem pessoas portadoras de mediunidade em fase inicial ou em desequilíbrio ou, ainda, obsidiados de todos os matizes, é fácil concluir que se não houvesse tais cautelas do Plano Espiritual, principalmente, graves problemas poderiam surgir decorrentes do ambiente espiritual e da presença de sensitivos não equilibrados.


Imaginemos, por um instante, a ambiência desta sala, relativamente aos encarnados presentes.


A grande maioria dos que comparecem ao Centro o faz impelida pelos problemas e sofrimentos que os aguilhoam.


Quando chegam estão aflitos, cansados, desesperados e, não raro, com idéias de suicídio ou outros tipos de pensamentos extremamente negativos.


Recorrem ao Espiritismo na condição de náufragos de tormentas morais que se agarrassem a uma tábua salvadora.


Trazem o pensamento enrodilhado no drama em que vivem e que é como um clichê estampado na própria aura.


Vibrando em enarmonia a quase totalidade dessas criaturas estão imantadas a desafetos do passado ou a entidades outras, igualmente em desequilíbrio, que por sua vez, as envolvem em fluidos perniciosos.


Várias são portadoras de monodeísmo, isto é, trazem o pensamento fixo em determinada idéia negativa, como por exemplo, no suicídio, no remorso de ato cometido etc.


Diversas estão magoadas, sofridas, ulceradas interiormente e com as forças deperecidas.


Outras estão perdidas em si mesmas, sem saber qual o sentido da vida e que rumo tomar.


Muitas esperam milagres que as libertem de imediato de seus problemas e umas poucas chegam por curiosidade ou desejosas de conhecer melhor o que é o Espiritismo.

Mas todas essas pessoas tem um denominador comum: a esperança.









Esse conjunto de vibrações desarmônicas e a malta de desencarnados que gravitam ao seu redor – todos interessados em obstar tudo aquilo que pode significar libertação para suas vítimas, no caso a palavra esclarecedora da Doutrina – por certo afetariam os médiuns presentes ainda não equilibrados, não fossem os cuidados e vigilância dos Benfeitores Espirituais.


Há ainda outro ponto a considerar: é que sendo um local de tratamento das almas enfermas, que somos quase todos nós, é imprescindível que os recursos do “laboratório do mundo invisível” sejam mobilizados e acionados para o atendimento espiritual.


Os Espíritos especializados fazem, portanto, a triagem dos desencarnados que irão entrar, sempre visando os que estão em condições de ser beneficiados, mas outros são momentaneamente afastados de suas vítimas enquanto estas permanecem no Centro.


Em decorrência, grande é o número de entidades que ficam postadas do lado de fora da Casa, como que aguardando permissão para entrar ou interessados em achar alguma brecha nas defesas magnéticas com o intuito de causarem perturbações.



Mesmo estes não ficam sem a ajuda do Alto, pois aparelhagem especial transmite a palavra dos expositores amplificando-lhes a voz.


No transcurso da exposição doutrinária grande amparo é prestado ao público.


Equipes especializadas atendem aos que apresentarem condições espirituais-mentais favoráveis, receptivas, medicando- os e, até mesmo, realizando cirurgias espirituais.


Por outro lado, a aproximação de entidades benfeitoras junto aos encarnados torna-se mais fácil pela natureza do ambiente e por estarem estes com o pensamento voltado para os ensinos clarificadores da Doutrina, o que lhes modifica, temporariamente, os panoramas mentais, favorecendo o otimismo e a renovação interior.


Concomitantemente, os “espíritos arquitetos”, muitas vezes, utilizam dos recursos dos painéis fluídicos que “dão vida” aos comentários do expositor, favorecendo o entendimento dos desencarnados presentes.



Isto, aliás, acontece em palestras sempre que o ambiente favoreça.


Toda essa programação, todavia, só se realizará se o Centro Espírita tiver o seu ambiente preservado de quaisquer frivolidades e mercantilismo; de intrigas e personalismo; se ali se cultivar a conversação sadia e edificante; se naquele local se praticar a verdadeira caridade e o estudo sério, e onde as principais metas sejam esclarecer, aliviar e consolar as almas que por ali aportarem, colocando-se assim à altura da proteção dos Espíritos Superiores.







O ambiente espiritual da reunião mediúnica


Os cuidados dos Espíritos que se dedicam à preservação do ambiente espiritual da sala onde são realizados os trabalhos mediúnicos são constantes e intensos, pois nada pode ser negligenciado, sob pena de comprometer-se o êxito da reunião.


O local destinado à sessão mediúnica tem, por assim dizer, uma fiscalização permanente, pois, principalmente no caso do recinto consagrado às sessões de desobsessão, muitos Espíritos necessitados e sofredores ficam aí alojados, em regime de tratamento para seu refazimento e reequilíbrio.


No dia da reunião o recinto passa por rigorosa assepsia a fim de livrá-lo e preservá-lo de larvas psíquicas (que são criadas por mentes viciosas de encarnados ou desencarnados); de ideoplastias perniciosas (formas-pensamento, clichês mentais); de vibrações deprimentes, constituindo tudo isso os “invasores microbicidas das regiões inferiores”, conforme esclarece João Cleofas. (3)


Importante ressaltar que tais “invasores microbicidas” contaminam o homem invigilante que apresente, por sua vez, pensamentos doentios, descontrolados, que são verdadeiras brechas ao assédio inferior, resultando daí a parasitose mental, ou vampirismo.


João Cleofas elucida que a sala mediúnica é o “ambiente cirúrgico para realizações de longo curso no cerne do perispírito dos encarnados como dos desencarnados”, como também local onde “se anulam fixações mentais que produzem danos profundos nas tecelagens sensíveis do espírito.”


 Além disso, há necessidade de se isolar e defender o recinto das investidas de Espíritos inferiores, o que leva os Benfeitores Espirituais a cercá-lo por meio de faixas fluídicas visando impedir a entrada de tais entidades.


Assim, só entrarão no ambiente aqueles que tiverem permissão dos dirigentes espirituais.


A sala mediúnica, conquanto seja limitada no seu espaço físico, no outro plano apresenta-se adimensional, já que se amplia de acordo com a necessidade, permitindo abrigar um número muito grande de desencarnados que são trazidos para tratamento, para esclarecimento, para aprendizagem etc.


Tem ainda mobiliário próprio e aparelhagens instaladas pela equipe espiritual.


Esta equipe conta com elementos especializados nesses trabalhos, inclusive aqueles denominados por Efigênio Vítor de “arquitetos espirituais” (4), que tem a seu encargo a tarefa complexa de criar os quadros fluídicos indispensáveis ao tratamento ou esclarecimento das entidades comunicantes.


Esses quadros fluídicos não são criados ao sabor do acaso mas obedecem a uma programação e à pesquisa sobre o passado dos que precisem desse recurso.


Tais painéis fluídicos são tão perfeitos que possuem “vida” momentânea, com movimentos, cor, como se fossem uma tela cinematográfica na qual as personagens são pessoas ligadas ao manifestante, ou ele mesmo se vê vivendo cenas importantes em sua existência de Espírito imortal.


Tudo isso nos dá uma pálida idéia do grandioso trabalho do mundo espiritual; é “o laboratório do mundo invisível”, citado por Kardec, que esclarece:


“(...) Os objetos que o Espírito forma, têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente.” (5)


E dizer que com a nossa invigilância podemos prejudicar num relance toda essa estrutura!


Isto acontece quando comparecemos despreparados para a reunião, trazendo vibrações negativas, desequilibrantes; quando trazemos o pensamento viciado e contaminamos o recinto cuidadosamente preparado.


Nesta hora, os tarefeiros da Espiritualidade usam recursos de emergência, isolando o faltoso, para que a maioria não seja prejudicada.


Em caso mais grave, porém, poderá ocorrer um desequilíbrio nos circuitos vibratórios que defendem a sessão, o que possibilitará a entrada de Espíritos perturbadores e conseqüente prejuízo para os trabalhos e os participantes.


Como vemos, integrar uma equipe mediúnica é um encargo de grande responsabilidade.


Importa considerar que somente as reuniões mediúnicas sérias merecerão dos Benfeitores Espirituais todo esse cuidadoso preparo mencionado.


Se os encarnados corresponderem, o grupo mediúnico crescerá em produtividade sob a chancela de Espíritos bondosos.


Em caso oposto, a reunião nada produzirá de positivo, tornando-se presa fácil paras Espíritos inferiores.


A opção é nossa, dos encarnados.


Os Amigos Espirituais estão sempre dispostos a secundar os nossos melhores esforços.


São eles que traçam as diretrizes dos trabalhos mediúnicos; que na realidade dirigem as atividades, mas ficam na dependência de nossa cooperação, pois uma sessão para a prática da mediunidade somente existe com o concurso dos dois planos da vida.


Se estivermos receptivos às orientações e apresentarmos por nosso lado um esforço de iniciativas identificadas com os seus propósitos, as duas equipes – a espiritual e a dos encarnados – tornar-se-ão homogêneas e o grupo vibrando no mesmo diapasão de Amor atenderá com sucesso aos irmãos que ainda jazem na ignorância e no mal.








A sala de passes


O recinto destinado aos passes apresenta características próprias, em virtude do trabalho ali realizado.


Sendo local de atendimento ao público é natural que este interfira na ambiência.


Entretanto, como se pode deduzir, a grande maioria das pessoas que buscam o socorro do passe o fazem imbuídas dos melhores sentimentos, é o que informa Áulus, instrutor espiritual de André Luiz.


Referindo-se à sala de passes, esclarece estarem ali reunidas “(...) sublimadas emanações mentais da maioria de quantos se valem do socorro magnético, tomados de amor e confiança”.


Estas vibrações permanecem no ambiente e se acumulam, a tal ponto que, no dizer de Áulus, criam uma atmosfera especial formada  “(...) pelos pensamentos, preces e aspirações de quantos nos procuram trazendo o melhor de si mesmos”.


Esse conjunto vibratório surpreendeu André Luiz, quando este observou uma sala de passes, pelo “ambiente balsâmico e luminoso” que apresentava. (6)


Tal como acontece com a sala mediúnica, o recinto destinado a essa atividade recebe dos Espíritos especializados a assepsia e as defesas magnéticas imprescindíveis à manutenção e preservação do ambiente.


Quanto ao atendimento aos enfermos, o autor espiritual explica que há um “quadro de auxiliares, de acordo com a organização estabelecida pelos mentores da Esfera Superior”, enfatizando que para o bom êxito do labor de passes há que se observar: experiência, horário, segurança e responsabilidade daquele que serve.


No momento dos passes é possível a alguns médiuns videntes divisarem a intensa movimentação dos Benfeitores, que se utilizam de aparelhagens especiais adequadas aos enfermos presentes.


A organização do Mundo Espiritual é, pois, exemplar.


Não obstante, nós, os encarnados, deixamos muito a desejar com as nossas falhas costumeiras, que vão desde a invigilância em nosso cotidiano até a freqüência irregular, o que por certo prejudica os trabalhos.


É fundamental, portanto, que haja uma conscientização, de nossa parte, da grandeza e complexidade dos labores espirituais, a fim de participarmos de modo mais eficiente e produtivo.


Que isso não seja, porém, um fator que leve ao misticismo (mas sim à responsabilidade) e que venha a influir ou modificar a nossa conduta no instante do passe ou no ministério mediúnico.


Embora o trabalho que se desenvolve “do outro lado” seja complexo, a nossa participação deve ser a mais simples possível, permeada, contudo, do mais acendrado sentimento de amor ao próximo.


Que nos lembremos sempre que para exercermos tais atividades a nossa preparação é toda, principalmente, interior.


É no nosso mundo íntimo que devemos laborar.


É a nossa transformação para melhor a cada momento.


Assim, não é a cor do vestuário nosso ou do paciente, a nossa gesticulação ou a sala ser azul ou branca que irão influir na qualidade da transmissão energética no instante dos passes, mas sim, a nossa mente impulsionando e direcionando essas energias fluídicas, o nosso desejo de servir, a nossa capacidade de ser solidário com aquele que ali está e de amá-lo como a um irmão. Por isso, a simplicidade deve ser a tônica no momento do passe, já que este é, essencialmente, um ato de amor.


E o amor é simples, desataviado e puro, tal como exemplificou Jesus.



CONCLUINDO:


Registramos, para nossa reflexão, a palavra de Emmanuel que enaltece a magna finalidade da Doutrina dos Espíritos:


“Ao Espiritismo cristão cabe, atualmente, no mundo, grandiosa e sublime tarefa.


Não basta definir-lhe as características veneráveis de Consolador da Humanidade, é preciso também revelar- lhe a feição de movimento libertador de consciências e corações.” (7)


É fundamental estarmos cônscios da imensa responsabilidade que assumimos quando da fundação de uma instituição espírita; não podemos esquecer que responderemos por tudo o que fizermos perante Jesus e a Espiritualidade Maior e, sobretudo, diante de nossa consciência.


Jesus vem e nos convida, novamente.


Quais os frutos que podemos oferecer?



Nossos celeiros ainda estão vazios?


Para encerrar, nada melhor do que o notável texto de Bezerra de Menezes, que reúne todas as diretrizes e, em simultâneo, também as advertências, imprescindíveis, a fim de que se preserve e mantenha a ambiência espiritual do Centro Espírita, fazendo jus, assim, aos cuidados e empenho dos Benfeitores Espirituais que o edificaram no plano extrafísico, para que ali sejam efetuadas as curas das almas, esclarecendo e confortando os corações e, sobretudo, libertando consciências:


 “As vibrações disseminadas pelos ambientes de um Centro Espírita, pelos cuidados dos seus tutelares invisíveis; os fluidos úteis, necessários aos variados quão delicados trabalhos que ali se devem processar, desde a cura de enfermos até a conversão de entidades desencarnadas sofredoras e até mesmo a oratória inspirada pelos instrutores espirituais, são elementos essenciais, mesmo indispensáveis a certa série de exposições movidas pelos obreiros da Imortalidade a serviço da Terceira Revelação.


Essas vibrações, esses fluidos especializados, muito sutis e sensíveis, hão de conservar-se imaculados, portando, intactas, as virtudes que lhe são naturais e indispensáveis ao desenrolar dos trabalhos, porque, assim não sendo, se mesclarão de impurezas prejudiciais aos mesmos trabalhos, por anularem as suas profundas possibilidades.


Daí porque a Espiritualidade esclarecida recomenda, aos adeptos da Grande Doutrina, o máximo respeito nas assembléias espíritas, onde jamais deverão penetrar a frivolidade e a inconseqüência, a maledicência e a intriga, o mercantilismo e o mundanismo, o ruído e as atitudes menos graves, visto que estas são manifestações inferiores do caráter e da inconseqüência humana, cujo magnetismo, para tais assembléias e, portanto, para a agremiação que tais coisas permite, atrairá bandos de entidades hostis e malfeitoras do invisível, que virão a influir nos trabalhos posteriores, a tal ponto que poderão adulterá-los ou impossibilitá-los, uma vez que tais ambientes se tornarão incompatíveis com a Espiritualidade iluminada e benfazeja.


 Um Centro Espírita onde as vibrações dos seus freqüentadores, encarnados ou desencarnados, irradiem de mentes respeitosas, de corações fervorosos, de aspirações elevadas; onde a palavra emitida jamais se desloque para futilidades e depreciações; onde em vez do gargalhar divertido, se pratique a prece; em vez do estrépito de aclamações e louvores indébitos se emitam forças telepáticas à procura de inspirações felizes; e ainda onde, em vez de cerimônias ou passatempos mundanos, cogite o adepto da comunhão mental com os seus mortos amados ou os seus guias espirituais, um Centro assim, fiel observador dos dispositivos recomendados de início pelos organizadores da filosofia espírita, será detentor da confiança da Espiritualidade esclarecida, a qual o elevará à dependência de organizações modelares do Espaço, realizando-se então, em seus recintos, sublimes empreendimentos, que honrarão os seus dirigentes dos dois planos da Vida.


Somente esses, portanto, serão registrados no Além-Túmulo como casas beneficentes, ou templos do Amor e da Fraternidade, abalizados para as melindrosas experiências espíritas, porque os demais, ou seja, aqueles que se desviam para normas ou práticas extravagantes ou inapropriadas, serão, no Espaço, considerados meros clubes onde se aglomeram aprendizes do Espiritismo em horas de lazer.”( 8)



REFERÊNCIAS

1 - FRANCO, Divaldo P. Tramas do destino, pelo Espírito Manoel P. de Miranda. 7. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2000, cap. 21, p. 196.


2  - Idem, ibidem, p. 200. 

3  - FRANCO, Divaldo P. Depoimentos vivos. Diversos Autores Espirituais, João Cleofas.

4 - XAVIER, Francisco C. Instruções psicofônicas, pelo Espírito Efigênio Vítor. 7. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1995, cap. 44.


5 - KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 70. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2002, cap. VIII, item 129.


6 - XAVIER, Francisco C. Nos domínios da mediunidade, pelo Espírito André Luiz. 29. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2002, cap. 17, p. 161-162.


7 ____________________. Missionários da luz, pelo Espírito André Luiz. 36. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2001, “Ante os tempos novos”, p. 8.


8 - PEREIRA, Yvonne A. Dramas da obsessão, pelo Espírito Bezerra de Menezes. 9. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2001, Conclusão, item III, p. 145, 146 e 147.



Fonte:



SEARA DO MESTRE. Disponível em  www.searadomestre.com.br/dimensoesespirituais.doc . Acesso: 22 JUN 2014.